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Meu encontro com a Satiagraha

"A minha preocupação não está em ser coerente com

as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema,

mas em ser coerente com a verdade." (Gandhi)

Caro leitor(a),

Hoje é um dia importante pra mim. É o dia em que anuncio aos meus leitores(as) que dei mais um passo importante no sentido de transformar a mim mesmo. Hoje, anuncio que me converti aos princípios da Satiagraha de Ghandi.

Agora sou um pacifista, adepto dos princípios da não-violência e da desobediência civil.

Semelhante a uma borboleta que não é mais uma lagarta, que já não é mais uma crisálida, me sinto livre para comunicar que não resta mais nada em mim que me identifique com o marxismo-leninismo ou qualquer outra convicção política que se fundamente na possibilidade de agrupamentos de homens ou mulheres que se imponham pela força aos seus semelhantes.

A Satiagraha é um princípio defendido por Ghandi. A palavra significa a busca pela verdade. Ghandi colocou em prática este princípio na célebre marcha do Sal, que era proibido de ser produzido na Índia pela Coroa inglesa. Ghandi foi seguido por milhares de pessoas até o litoral, onde pegou na praia o seu próprio sal. Foi um ato de desobediência civil, baseado na ideia da não-violência, que entende que uma resposta violenta aos nossos oponentes nos torna iguais aos que nos dominam.

A Satiagraha não tem nada a ver com passividade, mas se baseia em ações que desestabilizam nossos adversários, em virtude de nossas convicções na verdade e na certeza da coerência de nossos propósitos. Implica, também, em dizermos a verdade aos nossos oponentes e aliados, ainda, que a verdade possa parecer inconveniente ou abalar relações construídas no decorrer de uma vida.

Meu encontro com a Satiagraha aconteceu muito cedo, mas rechacei-a de imediato. Estudava, então, no Seminário São Pio X e alguns alunos eram adeptos do princípios da não-violência. Estes ideais sempre me pareceram utópicos, pois sustentavam a possibilidade de produzir transformações sociais pela via pacífica, sem se igualar as ações dos dominadores.

Eu, ainda adolescente, fiz uma opção totalmente diferente e passei acreditar que as mudanças sociais só poderiam acontecer através da luta armada, da destruição do estado burguês e implantação da sociedade comunista.

Li, então, algumas obras de Lênin, entre elas O Que Fazer e o Estado e a Revolução que me reforçaram a crença de que a consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior e que não existe revolução sem um partido revolucionário. Quem não se enquadrasse “neste protótipo revolucionário” era considerado, por mim, reformista e inimigo das classes trabalhadoras. E assim deveria ser tratado....

Ora a Satiagraha é um princípio mais poderoso que qualquer teoria revolucionária. Ela nos ensina que a verdade e a não-violência (não agressão a um ser vivo) significam a mesma coisa. Neste sentido, a luta pela verdade (pela justiça, pelo bem) é sempre uma luta não-violenta.

Ora, todos nós devemos praticar os princípios da Satiagraha, seja na família, nas escolas ou no trabalho. Não devemos impor a ninguém as nossas posições, mas, pacientemente, convencer as pessoas da justeza de nossas crenças. Se o seres humanos seguem nossas ideias por medo do cargo que ocupamos, o que defendemos será como a semente plantada em uma terra árida, provavelmente não germinará e os nosso projetos deixarão de existir quando o poder que possuímos se extinguir.

A Satiagraha é paciente, espera que as pessoas compreendam a justeza dos nossos propósitos, não utiliza-se da coerção para eliminar seus adversários, não escolhe o caminho fácil ou atalhos, mas trabalha, pacientemente, para que seus adversários compreendam que somente atitudes não-violentas são verdadeiramente revolucionárias.

A Satiagraha não objetiva obter a vitória ou a derrota de cada uma das partes conflitantes, mas antes uma nova ordem harmônica.

O meu objetivo, a partir de hoje, não é dominar ninguém ou impor minhas convicções a quem quer que seja, mas apenas manter-me firme na certeza da verdade e no princípio da não-agressão e esperar, pedagogicamente, que as pessoas compreendam os propósitos dos projetos que participo.

Afinal a chegada da idade da razão deve servir pra fazermos um inventário de nossas vidas, um balanço de nossos acertos e admissão de nossos erros. A idade da razão é o início de um novo ciclo - talvez o último de minha vida, por isso, seja necessário fazer um ajuste de conta com meu passado.

Parodiando o apóstolo Paulo: Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a maduridade, a única coisa boa a preservar eram as coisas de menino. (Coríntios 13:11)



Escrito por luiscavalcante às 11h51
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