
Memórias de um velho (ex)militante(*) "Se queres mudar ao mundo, muda-te a ti mesmo." [ Ghandi ] Caro leitor(a) Como é de conhecimento de muitos leitores(as) do blog há muitos anos não sou mais filiado ao Partido dos Trabalhadores. Pelo PT, fui o primeiro vereador de esquerda eleito no município de Ananindeua e tive um mandato marcado pela denúncia a corrupção política e eleitoral, que até hoje campeia lá na terra do anani.
Era um parlamentar muito jovem e praticamente o único de oposição numa câmara de vereadores composta por quinze edis. Em meu mandato fui preso por defender o interesse de estudantes e de trabalhadores informais. Foram prisões ilegais que me fizeram frequentar a mala do carro da polícia federal ou a escuridão e a solidão da cela do carro do Patam.
Devido a natureza combativa de minha atividade parlamentar e a minha imprudência juvenil tive meu mandato suspenso por 90 (noventa) dias e só não fui cassado devido a intervenção do deputado Federal Paulo Rocha, a quem de uma forma tão deselegante e descortês, nunca agradeci pela demonstração de solidariedade, atitude tão rara entre os militantes das diferentes correntes internas petista.
Em alguns momentos tive que frequentar a Câmara de Vereadores portando arma (uma bonita e inútil pistola) para proteger minha própria vida. A morte muito mal explicada de um parlamentar do PMDB na legislatura seguinte comprovaria que meus temores não eram de todo infundado.
O dia em que perdemos a eleição por não alcançamos o quociente eleitoral foi um dos mais tristes de minha vida. Chorei, a derrota tem um sabor amargo, pois acreditava que a nossa atuação na câmara municipal tinha cumprido os objetivos partidários de mostrar o caráter burguês do parlamento e de apoiar a organização dos trabalhadores(as). Como era tolo!!!!!!
Mas talvez a constatação mais dura daqueles quatro intermináveis anos de atuação parlamentar era que o PT havia mudado significativamente e que o contato com a institucionalidade o havia contagiado com o gosto pelo poder e todas as vantagens e desatinos que ele pode propiciar.
Um dia escrevi um texto e enviei por fax para o Diretório Municipal de Belém comunicando minha desfiliação partidária. Não tive coragem de entregar aquela carta pessoalmente, pois é difícil para quem, ainda, é apaixonado, assinar o documento que consuma sua separação do ente amado.
Naquele dia deixei de me considerar militante petista, mas ficaram as lembranças bonitas e os momentos de frustrações, as lembrança do dia que descobri que companheiros de nossa organização interna espancavam suas esposas, de que não agiam de forma ética no trato do dinheiro partidário.
Em muitos momentos, em nome do centralismo democrático, tive que acobertar muitas condutas equivocadas dos companheiros da tendência que violavam a suposta ética socialista que tencionávamos implantar no mundo. Em nome do socialismo e da justiça social fraudamos atas de eleições internas, pagamos cabos eleitorais para ajudar na campanha e fomos, gradativamente, nos tornando iguais aos nossos adversários que tínhamos por objetivo derrotar.
Tudo de equivocado que fizemos passou a ser justificado em nome da luta pela libertação das classes trabalhadoras, pela implantação do socialismo, pela destruição do estado burguês e a edificação da sociedade sem classes.
Esquecemos apenas de confrontar nossas práxis com a velha máxima cristã descrita na parábola do mordomo infiel:”Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito”. Creio que foi por estas pequenas frestas, abertas em nossas veias partidárias, que o vírus do mensalão foi introduzido, provocando tanto desgaste e vitimando tantos importantes dirigentes do PT.
Mas a Fênix vermelha se recompôs e re-elegeu Lula presidente e Ana Júlia Governadora do Estado do Pará. Votei em Lula em todas eleições para presidente em que ele se candidatou, exceto na última que o apoiei no segundo turno. Hoje, olhando a maneira que LULA enfrenta a crise internacional e os programas sociais que implantou no Brasil apoiaria sua re-eleição ilimitada semelhante ao direito que conseguiu Hugo Chaves na Venezuela, através de um referendum.
Quanto a Ana Júlia - apesar de todas as dificuldades que vem enfrentando no governo, ela já aprendeu a lição fundamental que todo governante do PT deve aprender, a de que para governar a favor do povo é preciso contrariar algumas tendências internas petistas. Para constatar seu aprendizado basta ler com atenção O Diário Oficial do Estado.
Não tenho dúvida que Ana Júlia será re-eleita governadora. Será re-eleita menos pela eficiência de seu governo e mais porque quando um anjo a trouxe ao mundo e a colocou no berçário, o médico deve ter vaticinado a dona Maria José Vasconcelos Carepa : “a menina é bonita e saudável e será guiada, como diz o ditado popular, pela estrela da sorte”.
(*) Escrevi o texto enquanto aguardava minhas duas sobrinhas serem atendidas na UNIMED da Br-316. Enquanto digitava, escutava a nossa classe média destilar seu preconceito afirmando que o atendimento pelo qual paga mais parece o SUS.
Escrito por luiscavalcante às 14h43
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